A casa própria ao preço de um jantar

Viajar pelo interior do país é a melhor forma de entender por que Lula virou um mito e Dilma será eleita em 3 de outubro. Dilma virou um mito porque pessoas como Teotônio*, que antigamente nasciam ouvindo o pai dizer que casa própria era coisa de rico e morriam contando a mesma história para os filhos, hoje têm outro discurso.

Teotônio é um sujeito humilde e simpático, que faz bico de motorista na campanha eleitoral do Tocantins. A caminho de uma gravação no último fim de semana, passamos ao lado da casa dele, que com orgulho ele apontou e começou a contar como é bonita, espaçosa, bem ajeitada. “Se vocês quiserem, na volta a gente para pra vocês conhecerem”.

A residência fica ao lado de um sem-fim de casinhas populares construídas com dinheiro do governo federal. Teotônio faz questão de dizer que a dele não foi dada, que está sendo paga centavo a centavo, com muito suor. Mas reconhece que só conseguiu bancar o sonho da casa própria graças a uma das melhores ações da administração Lula: a ampliação do microcrédito.

“Pago 180 reais em 180 vezes”, diz ele, os números na ponta da língua. Ou seja, 15 anos e 32.400 reais depois, ele terá quitado a casa na qual já vive confortavelmente com a família.

180 reais, dinheiro que um casal gasta tranquilamente num jantar na zona sul do Rio, que um amante de Guinness gasta para tomar 8 ‘pints’. 32.400 reais, quantia que não vale nem a entrada de uma quitinete em São Paulo.

É uma realidade distante do sulzão maravilha, mal e porcamente retratada pela mídia, que prefere ressaltar os exemplos escassos de pessoas que se encostam no Bolsa Família do que aquelas que conseguir dar um salto na vida com o benefício ou que, de tão honestas, devolveram o cartão por não precisar mais.

Por isso é tão difícil para algumas pessoas entender por que o país está melhorando. 32.400 é uma fortuna, sim. E Teotônio está feliz da vida. “Minha vida melhorou muito com Lula, com Marcelo Miranda e agora com Gaguim”, diz, referindo-se ao último e ao atual governadores do Tocantins.

*Nome fictício.

Politiquices à parte, o que interessa mesmo é que neste dia Teotônio me levou para uma cachoeira onde fiz rapel pela primeira vez:

Sobre Julio Cruz Neto

Escritor, documentarista e jornalista
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9 respostas para A casa própria ao preço de um jantar

  1. Concordo plenamente. Passei a semana no Ceará e muita gente que mora na capital tem família e laços do interior. Todos insistem que o interior do Estado melhorou muito. Tem água, tem luz elétrica, tem mais empregos. Para as pessoas que viviam na dureza do sertão, esse pouquinho básico é MUITA COISA. E, coincidência ou não, isso aconteceu nos últimos 10 anos. Ou seja, o crédito vai mesmo para o Lula. Mesmo assim, voto na Marina pois não tenho estômago para a Dirma…

  2. Ivan disse:

    Que Deus ilumine seus caminhos por esse Brasilzão tão lindo e cheio de historias. Fico contente e emocionado com a historia do Teotônio e de outros tantos que estão realizando e prosperando com tão pouco (pra nós) e tanto para eles (uma fortuna).
    Parabens Julio, parabens Gege, e contem mais que estamos curiosos. Vamos em frente que só assim a gente de todo o lugar vai entender porque o Lula, porque a DILMA e porque o PT. A nossa dita classe média (ou será classe “mídia”) um dia vai entender.

  3. Mary Castilho disse:

    Maria Eugênia e Júlio,
    Pelo visto, nem têm saudades dos meus jantares, pois têm passado muito bem, mesmo com o Parma assado (rs). Continuem registrando tudo e aproveitando muito desta experiência incrível. Continuarei seguindo vocês por esses caminhos distantes.
    Beijos, Mary

  4. Julio disse:

    Mary querida,
    nossa primeira providência ao voltar será filar um jantar na tua casa, pode esperar… É melhor do que qq restaurante daqui.
    Haroldo e Ivan,
    fiquem conosco que vamos sempre postar coisas que não estão na “classe mídia” e sua “opiniinha pública” (citando Eugênio Bucci).

  5. Ana Luisa Médici disse:

    Gege querida!

    O blog está genial. Muito bem escrito, com coração e alma.

    Continuem este lindo trabalho.

    beijo

    Ana Luísa Médici

  6. Débora disse:

    Queridos,

    O Blog está cada vez melhor, as histórias são emocionantes e tenho certeza que vcs estão aí pra nos mostrar que existe um jeito melhor de viver a vida: simplicidade, respeito e principalmente humildade. Essas pessoas que estão mais próximas disso tudo é que nos faz lembrar que pra ser feliz basta SABER sorrir….

    Obrigada por compartilharem esta experiência única!!

    Beijos!!

  7. Julio disse:

    Débora,
    se é uma vida melhor ou pior, é uma questão de gosto e de momento de vida. Mas uma coisa eu garanto: é absolutamente possível levar uma vida bem diferente da que São Paulo oferece. Basta ter o coração aberto e praticar o desapego.
    Valeu pela visita e continue com a gente.
    Ana Luísa, valeu tb. Genial foi seu comentário.
    Bjs nossos

  8. meu caro quando eu crescer quero escrever como vc…..sensacional esse relato da conquista do seu Teotonio…é a velha historia: todo mundo tem teoria, todos os marqueteiros sao genias, mas quem faz tudo mudar é o povo…..eu fico muito feliz por vc ter relatado de forma tao emocionante o que esse governo fez pela vida dessas pessoas tao sofridas….e toma cuidado com esse negocio de rapel viu ?!!! muita aventura… saudades….bj

  9. Luiz Lobo disse:

    Pois é…

    “Politiquices à parte, o que interessa mesmo é que neste dia Teotônio me levou para uma cachoeira onde fiz rapel pela primeira vez…” O vermelho dos olhos, para os mais esclarecidos, deveria refletir o verde da natureza. Rapelar… é comigo mesmo.

    Marinei e concordo com o Haroldo – engolir a Dilma é congestão na certa!

    Bjka

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