Fios de ouro e de esperança

Capim Dourado, quem te dourou?
Foi o sol, foi a lua, foi o vento que ventou?
Ou apenas o lamento das dunas do Jalapão?
Capim Dourado, quem te semeou?
Foi a estrela da Aurora, foi o vento do acaso?
Ou a mão do poderoso num momento de magia?
Não, não foi?
Foi a leve mão de Deus, que num instante criou.
Fez brotar sementes e dourados fios nas terras do Jalapão!

(Lea Gomes, 16 anos)

Léa Gomes, autora destes versos, assim como a maioria das pessoas da Comunidade Mumbuca, no Jalapão, só consegue ter comida, pão e leite na mesa porque faz artesanato com a vegetação encontrada nas veredas, conhecida como capim dourado.  Este capim é como os que estamos acostumados a ver por aí nos campos, com a única diferença que, em setembro, fica dourado e brilhante como ouro. Sendo assim, a colheita é feita apenas uma vez por ano.

Trabalhados por mãos habilidosas e criativas, estes fios de ouro se transformam em vários tipos de objetos: brincos, colares, pulseiras, bandejas, sandálias etc. É inacreditável olhar a planta e pensar que vira um produto como estes da foto abaixo:

Loja na Mumbuca, onde vende capim dourado e as artesãs

Conhecida como a rainha do Capim Dourado, dona Miúda, de 86 anos (a velhinha simpática que aparece comigo na próxima foto), foi  a responsável por ensinar às mulheres da região de Mumbuca, um pequeno povoado de descendentes de escravos no Jalapão, a arte do capim dourado. Este vilarejo enfrenta muitos problemas sociais , como a desnutrição e falta de saneamento básico. As pessoas são paupérrimas, vivem também da lavoura e no café da manhã mal sabem o que vão ter para comer durante o dia.

Sentada no quintal de sua pequena casa de 4 cômodos doada pelo antigo governador do Tocantins,  Marcelo Miranda, a pioneira me conta que se não fosse a venda dos produtos que fazem tanto sucesso no exterior, chegando a custar US$ 500, as mulheres do Jalapão não teriam nem como sustentar a família. Por aqui, estes produtos são vendidos a preços bem mais modestos. Uma pulseira, por exemplo, custa para nós R$10. O produto mais caro que encontramos foi um revisteiro de R$150.

Para juntar os fios de ouro no artesanato, é usada a palha do buriti, extraída da palmeira. Tanto este produto quanto o capim dourado precisam de um plano de manejo muito bem elaborado, já que não existem mais em abundância como antigamente. Os moradores arrancam a planta pela raiz  e usam o fogo para fazer a colheita, enfraquecendo o solo. De acordo com dona Miúda, o certo é que a colheita seja feita de forma sustentável, sem arrancar a semente: “Tem que preservar, né? É o nosso ganha pão!”.

Dona Miúda, rainha do capim dourado, e eu! E assim os produtos vão se multiplicando. Em todo canto do Estado, existe gente oferecendo o artesanato que só é produzido por aqui. Quem compra nem imagina que ele ajuda a alimentar centenas de pessoas e que é vendido a preço de ouro no exterior. Por isso, uma cooperativa foi montada no Estado para ajudar as artesãs a qualificar o produto e tabelar os preços, já que umas vendiam uma pulseira por R$3 e outras, a mesma pulseira por R$10. Aos poucos, a alternativa econômica está começando a ajudar a população, uma das mais pobres da região. O problema agora a ser pensado é o manejo auto-sustentável do capim para que nunca falte matéria-prima para estas artesãs.

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2 respostas para Fios de ouro e de esperança

  1. Marco Froner disse:

    Queridos, adorei o blog. Já sou leitor assíduo.
    Bjs.

  2. Julio disse:

    Grande Marco! Por que vc não aproveita que está em período sabático para vir viver pessoalmente uns causos tocantinenses?

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