Quebra tudo, Raimunda!

Sentadas no chão de terra batida, sob sol escaldante e com o estômago vazio, elas esperam a venda da quebra de coco para poder tomar o primeiro café do dia, seja ele amargo ou frio, com farinha. A música entoada pela mais idosa deixa o ambiente agradável e faz com que, momentaneamente, a vida se torne mais leve. Ao longe, o burrico com dois cestos de vime traz mais matéria-prima para que elas possam tirar o sustento. Debaixo da palmeira, vários meninos se amontoam para pegar os cocos que caíram no chão e levar para as mães, tias, avós… Este é um dia normal das chamadas quebradeiras de coco.

Me aproximo e fico encantada com a cena: uma roda cheia de mulheres de 15 a 80 anos, a maioria descalça, de saia e lenço no cabelo, dando ritmo às batidas do porrete no coco. Abrem um a um e aproveitam tudo: a amêndoa do coco, que é o que mais tem valor industrial se extrai o óleo e custa R$6 o saco; a casca do coco vira carvão como fonte de combustível para várias famílias e a sua fumaça é um repelente natural; as folhas da palmeira de babaçu servem de matéria-prima para fabricação de utensílios como cestos, coifas, abanos, portas etc. Além disso tem o artesanato que é feito com a casca do coco. Lindos colares e anéis enfeitam estas mãos calejadas e destruídas pela crueza do trabalho destas mulheres.

E, por fim, tem também o que eu achei mais nojento e não consegui provar, infelizmente, pois queria ter estômago para contar para vocês: são os gongos, larvas de um besouro que crescem dentro do coco de babaçu. As pessoas comem puro ou fritam e jogam um pouquinho de sal.

“É uma delícia, moça. Você come e ele fica mexendo dentro da boca, olha, faz até cosquinha… “. Esta resposta de uma das quebradeiras de coco foi decisiva para eu não ter vontade mesmo de comer.

Estas mulheres ficam na cidade de São Miguel do Tocantins, no Bico do Papagaio, norte do Estado – região miserável e de conflitos agrários. As quebradeiras de coco de babaçu atuam nas 23 cidades do Bico. São mulheres em geral privadas de informação, consciência política e organização sindical. A única instruída, embora analfabeta, é dona Raimunda. Baixinha e corpulenta, cara de ranzinza, já viajou continentes representando a causa das mulheres extrativistas. Recebeu muitas homenagens e integrou a lista de mil mulheres, de todo o mundo, concorrentes ao Prêmio Nobel da Paz, em 2005.

Dona Raimunda quebradeira de coco e eu

Semana passada, por exemplo, o Lula veio para o Tocantins e a dona Raimunda foi uma das poucas que ganharam a atenção do presidente. Desde cedo quebrando coco, foi quem criou o Partido dos Trabalhadores (PT) em São Miguel, e quem sempre lutou para que as quebradeiras ficassem conhecidas no mundo todo. Graças a ela, estas mulheres continuam tendo babaçu para quebrar e também já tem casa doada pelo governo, água e saúde. Brigar com político é com ela mesma. É por isso também que a maioria dos candidatos do Tocantins vão até ela pedir voto.

A luta é árdua, mas a única forma das mulheres terem o que têm. Dona Maria do Socorro Alves da Silva, quebradeira desde os seis anos de idade, diz que graças ao coco é que tem dinheiro pra comer. “Olha, eu sou mãe de cinco filhos e criei meus filhos quebrando coco. Era quebrando coco que eu comprava roupa pra eles, móveis pra casa, remédio. A gente sofre tanto, mas é o jeito, né? Por causa do coco meus filhos tão tudo criado agora.”

Me comoveu bastante ver pessoas da idade da minha avó quebrando coco, sem reclamar, para ter dinheiro para comer à tarde. Ainda é um sonho distante a ser percorrido, mas pouco a pouco estas raimundas anônimas tentam uma política de aproveitamento econômico racional do coco e seus subprodutos. Os problemas fundiários já foram sanados, agora só falta a aprovação da Lei do Babaçu Livre e a dignidade roubada por estas mulheres que precisam pular cercas para tirar o sustento diário.


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2 respostas para Quebra tudo, Raimunda!

  1. Marize Muniz disse:

    Lindo texto sobre uma história de luta que começou faz tempo e não tem hora para acabar. Fiquei emocionada, com a história e a maneira como foi escrita. Parabéns, companheira. Sua sensibilidade é tocante.

  2. Julio disse:

    Não tive a sorte de conhecer o Bico, mas ainda bem que a parceira é boa de conto e de prosa…

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