The good, the bad and the ugly

O som da guitarra estava abafado, distorcido, chiado, desafinado… uma perfeicão. Aquele clássico do George ali, naquela Augusta fervendo no lusco fusco entre a noite e a madrugada, tocado por um roqueiro hiponga e acompanhado por duas tietes que não faziam ideia de qual era a música, mas estavam felizes de compartilhar a alegria do cara… tudo ornava.

Depois de uma sessão dupla de cinema, um documentário que dá vontade de sair tocando fogo nos bancos e arrumando outro emprego pros amigos que neles trabalham, seguido de um drama que traz à memória as pessoas queridas que se foram, a gente parece que sai pra rua com os poros mais abertos. E as narinas, os olhos, ouvidos.

Isso traz à tona o bom e o ruim de São Paulo. O movimento do eixo Augusta-Paulista, gente de todo tipo, a garota bêbada tropeçando na sarjeta e tirando sarro de si mesma (se não levasse um tombo, não seria eu); o queima-largada debruçado na grade, PT total, nem vomitar consegue mais; os tanquinhos sem camisa (uma praga que se alastra e no verão parece epidemia); a menina do cabelo de Jimmy Cliff numa correria, parece atrasada pro trabalho. Enfim, movimento, gente caminhando sem depender de carro, como infelizmente não acontece na maior parte da cidade.

Mas aí é preciso sair da Paulista pra descer a Bela Cintra até o carro e aí vem a outra parte. Calçada escura, aquela noia inevitável de que alguém pode aprontar uma surpresa desagradável. Aqui tem muita gente que tem muito menos do que deveria; muita gente que tem mais do que precisa; muita gente que ostenta mais do que precisa; e muita gente que, seja por tudo isso, seja por falta de vergonha na cara, se acha no direito de tomar dos outros o que lhe falta. E tem também o medo de o motorista apressadinho, estressado e dono da rua, roletar o semáforo vermelho e te deixar igual o menino do filme do Clint. E tem também o flanelinha, que faz uma cara de Bravura Indômita quando você diz que “hoje não tem nada, tio”.

Isso é girar em São Paulo. Um a girar, porque a outra está num lugar bem mais civilizado…

Sobre Julio Cruz Neto

Escritor, documentarista e jornalista
Esse post foi publicado em São Paulo e marcado , , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

Uma resposta para The good, the bad and the ugly

  1. mariacastilho disse:

    Caraca… Belo texto. Sao destes que eu gosto mais, que nao sao obvios e passam o recado. Tks a lot!

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